Gilmar Gonçalves

Gilmar Gonçalves (Antonina, PR, 1955) é um pintor e artista autodidata brasileiro. Nascido em 7 de março de 1955, participou ativamente do ambiente artístico de Curitiba durante as décadas de 1980 e 1990, período marcado pela atuação de galerias, coletivos e espaços independentes dedicados à pintura paranaense.

Seu interesse pelo desenho e pela figura humana remonta à infância em Antonina. O artista recorda a influência do irmão, que desenhava personagens e temas relacionados ao carnaval da cidade. Essas primeiras imagens permaneceram em sua memória e contribuíram para a formação de um repertório no qual convivem fantasia, cenas populares, lembranças afetivas e personagens do cotidiano.

Por volta de 1973, mudou-se para Curitiba. Na capital paranaense, trabalhou profissionalmente como desenhista, conciliando essa atividade com o desenvolvimento de sua produção artística. Os registros disponíveis situam o início de sua pintura nos primeiros anos da década de 1970, embora as fontes apresentem pequenas diferenças quanto à data exata.

Ao longo da década de 1980, Gilmar Gonçalves passou a participar regularmente de exposições coletivas em Curitiba. Em 1984, integrou a mostra Arte Classe Acaiaca, realizada na Galeria Acaiaca, ao lado de artistas de diferentes gerações. Em 1988, participou da coletiva São Francisco — Acaiaca, que reuniu nomes como Poty Lazzarotto, Fernando Calderari, Érico da Silva, Rogério Dias e Antônio Maia.

Sua primeira exposição individual documentada foi inaugurada em 12 de junho de 1990, no Acaiaca Espaço Arte Galeria, em Curitiba. A mostra teve expressiva recepção: praticamente todas as obras foram comercializadas na noite de abertura. O resultado chamou a atenção da imprensa e confirmou a presença do artista no circuito cultural curitibano daquele período.

A produção apresentada nessa fase era predominantemente figurativa e possuía uma atmosfera lírica, fantástica e, por vezes, mística. Anjos, músicos, arlequins, pierrôs e colombinas apareciam envolvidos por tecidos, sobreposições e formas que pareciam flutuar. Chapéus elaborados, instrumentos musicais e vestimentas fragmentadas contribuíam para construir cenas silenciosas, afastadas da representação direta da realidade.

Os personagens da commedia dell’arte interessavam ao artista por sua aparência teatral, mas também pelas possibilidades oferecidas por seus figurinos. As roupas permitiam explorar curvas, dobras, volumes e áreas de cor, enquanto os rostos serenos e os gestos delicados transmitiam sensações de inocência, paz e ternura.

A crítica da época observou que suas figuras pareciam surgir entre fragmentos de papel ou cartazes rasgados. Essa aproximação visual com o papel é especialmente significativa quando relacionada à pesquisa que o artista desenvolveria posteriormente, baseada justamente em vincos, dobras, recortes e sobreposições.

A memória sempre ocupou uma posição central em sua pintura. Gilmar não procura reproduzir literalmente uma lembrança, uma rua ou uma celebração. Ele reorganiza esses elementos por meio da cor e da forma, aproximando experiências pessoais de uma imaginação compartilhada. Desse processo surgem cenas reconhecíveis, mas transformadas por uma atmosfera lúdica e poética.

A partir de aproximadamente 2005, após um longo período de observação e pesquisa, o artista encontrou nas experiências com papel sulfite e cartolina um novo caminho para sua produção. As folhas são dobradas, vincadas e recortadas, produzindo formas que posteriormente são convertidas em desenhos e transferidas para a tela.

Nesse processo, o papel não funciona apenas como estudo preparatório. Ele oferece ao artista uma maneira concreta de descobrir formas e relações espaciais. Dobras geram linhas; recortes definem silhuetas; áreas sobrepostas sugerem planos e movimentos. A pintura nasce, assim, de uma experiência tátil que antecede a construção da imagem sobre a tela.

A geometria resultante dessa pesquisa não conduz sua obra à abstração completa. Ela organiza figuras, objetos, paisagens urbanas e cenas do cotidiano. As formas são simplificadas e delimitadas com clareza, enquanto as cores intensas — muitas vezes empregadas de maneira pura — estabelecem ritmo, contraste e movimento.

Curitiba ocupa um lugar importante nessa produção. Ruas, edifícios, praças e elementos característicos da cidade são reinterpretados por um olhar gráfico e profundamente pessoal. Em vez de uma descrição arquitetônica objetiva, o artista apresenta uma cidade reconstruída pela memória, na qual os espaços urbanos convivem com personagens, brincadeiras e situações imaginadas.

Sua iconografia é simples e afetiva, frequentemente próxima do universo infantil. Meninos soltando pipas, cachorros, gatos, barquinhos, carrinhos de mão, bicicletas, figuras com sombrinhas, quermesses e serenatas integram um repertório de imagens que pode nascer tanto da observação quanto das recordações da infância.

Esses elementos não aparecem isoladamente. São organizados como partes de uma narrativa visual marcada pela fantasia, pelo movimento e pela convivência. A simplificação das formas reforça o caráter simbólico dos personagens e permite que experiências particulares adquiram uma dimensão mais ampla e universal.

A técnica empregada por Gilmar Gonçalves também passou por transformações. Inicialmente, o artista utilizava camadas finas de tinta, por vezes raspando a superfície da tela para produzir um acabamento semelhante ao papel. Posteriormente, passou a trabalhar com uma matéria pictórica mais espessa.

Sobre essas camadas densas, cria vincos e sulcos com o pincel, simulando a superfície dobrada do papelão e acentuando a relação entre pintura, matéria e gesto. A tela deixa de funcionar apenas como suporte para uma imagem e passa a registrar fisicamente o processo de construção das formas.

Em sua produção madura, geometria e memória não são campos opostos. A estrutura rigorosa organiza um universo essencialmente afetivo, enquanto a cor transforma cenas comuns em acontecimentos visuais. O cotidiano é submetido a uma espécie de reinvenção poética, na qual a cidade, a infância e a fantasia passam a ocupar o mesmo espaço.

A trajetória de Gilmar Gonçalves revela uma pesquisa construída de maneira independente e contínua. Da figuração lírica apresentada no início de sua carreira às composições geométricas desenvolvidas a partir das experiências com o papel, o artista preservou o interesse pela figura humana, pela cor e pelas lembranças que atravessam a vida cotidiana.

Desde 2025, a Galeria de Arte Um Lugar ao Sol possui pinturas de Gilmar Gonçalves disponíveis para comercialização.

 

FORMAÇÃO

Autodidata – Formação desenvolvida por meio da prática da pintura, do desenho e da pesquisa com papel, recorte, dobra e matéria pictórica.

 

EXPOSIÇÕES INDIVIDUAIS

1990 – Exposição individual, Acaiaca Espaço Arte Galeria, Curitiba, PR, Brasil

 

EXPOSIÇÕES COLETIVAS

1988 – São Francisco — Acaiaca, Galeria Acaiaca, Curitiba, PR, Brasil

1984 – Arte Classe Acaiaca, Galeria Acaiaca, Curitiba, PR, Brasil

 

TRAJETÓRIA PROFISSIONAL E PESQUISA ARTÍSTICA

Início da década de 1970 – Início da produção artística

Décadas de 1980 e 1990 – Participação no circuito de exposições e galerias de Curitiba, PR, Brasil

Década de 1990 – Atuação profissional como desenhista em Curitiba, paralelamente à produção pictórica

Cerca de 2005 – Início da pesquisa sistemática com vincos, dobras e recortes em papel sulfite e cartolina, posteriormente transferidos para o desenho e para a pintura

Desde 2025 – Obras disponíveis na Galeria de Arte Um Lugar ao Sol, Curitiba, PR, Brasil