Juarez Machado

Juarez Machado (Joinville, SC, 1941) é pintor, desenhista, gravador, escultor, ilustrador, cartunista, cenógrafo, designer, escritor e artista performático. Nascido em 16 de março de 1941, construiu uma trajetória marcada pela integração entre artes visuais, humor, teatro, televisão e literatura, alcançando ampla projeção no Brasil e no exterior.

O interesse pela arte surgiu ainda na infância, em um ambiente familiar que estimulava o desenho e a criação. Ao lado do irmão, Edson Machado, transformava a mesa de jantar em espaço de experiências gráficas. Também modelava pequenas figuras em barro, antecipando o interesse pela tridimensionalidade que mais tarde apareceria em suas esculturas e objetos.

Em 1958, começou a trabalhar no Laboratório Catarinense, em Joinville, produzindo rótulos, embalagens de medicamentos, cartazes e ilustrações para o Almanaque Renascim. Essa primeira experiência profissional aproximou desenho, comunicação e produção gráfica, elementos que permaneceriam presentes em diferentes momentos de sua carreira.

No ano seguinte, mudou-se para Curitiba e ingressou na Escola de Música e Belas Artes do Paraná. Durante o período de formação, participou de salões e exposições, recebendo um de seus primeiros reconhecimentos com a obra Operários do Itaum. A convivência com o ambiente artístico curitibano ampliou seu domínio técnico e sua percepção das possibilidades narrativas do desenho e da pintura.

Paralelamente aos estudos, trabalhou na TV Paraná, criando cenários e colaborando em programas televisivos. Essa aproximação com a linguagem cênica ajudou a formar uma concepção de imagem que ultrapassava os limites convencionais da tela. Cenários, gestos, objetos, figurinos e personagens passaram a ser compreendidos como partes de uma mesma composição.

Em 1964, realizou sua primeira exposição individual em Curitiba, apresentando uma série dedicada às bicicletas. O tema, que retornaria diversas vezes ao longo de sua trajetória, já revelava seu interesse pelo movimento, pelo equilíbrio instável e pela transformação de objetos cotidianos em agentes de situações poéticas e bem-humoradas.

Em meados da década de 1960, transferiu-se para o Rio de Janeiro. Na cidade, diversificou sua atuação e participou intensamente do meio cultural brasileiro. Trabalhou como ilustrador, chargista e cartunista para jornais e revistas, criou capas de livros e discos, desenvolveu projetos gráficos e colaborou com artistas, escritores, músicos, arquitetos e profissionais do teatro e da televisão.

Juarez Machado também realizou cenários e figurinos para peças teatrais, espetáculos musicais e produções televisivas. Na Rede Globo, integrou equipes de criação, humor e programação visual, trabalhando ao lado de nomes como Max Nunes, Borjalo, Chico Anysio e Jô Soares. Produziu vinhetas, aberturas, chamadas e cenários, além de participar de projetos ligados a artistas como Elis Regina, Roberto Carlos, Raul Seixas e Emílio Santiago.

Sua atuação na televisão alcançou grande popularidade durante a década de 1970, quando passou a apresentar no programa Fantástico números de mímica nos quais interagia com os próprios desenhos. Sem recorrer à palavra, construía situações cômicas por meio do gesto, do movimento corporal e da imagem. Essas performances sintetizavam uma característica fundamental de sua obra: a capacidade de narrar visualmente.

A experiência como mímico não constituiu uma atividade isolada. O gesto teatral migrou para suas pinturas, desenhos e esculturas. Seus personagens parecem surpreendidos no meio de uma ação, como se integrassem uma cena que começou antes da imagem e continuará depois dela. Braços alongados, posturas coreografadas, olhares insinuantes e encontros cuidadosamente encenados produzem uma sensação permanente de movimento.

Juarez Machado também se destacou na literatura infantil ao criar livros construídos exclusivamente por imagens. Ao dispensar o texto escrito, desenvolveu narrativas acessíveis a leitores de diferentes idiomas e idades. Humor, surpresa e continuidade visual organizam essas publicações, aproximando-as de sua experiência com a charge, a mímica e a narrativa sequencial.

No final da década de 1970, decidiu ampliar a circulação internacional de sua produção. Viajou por cidades como Nova York, Londres e Paris, estabelecendo contato com galerias, artistas e novos ambientes culturais. Em 1986, fixou residência na capital francesa e instalou seu principal ateliê em Montmartre, sem romper os vínculos com o Brasil.

A experiência parisiense contribuiu para consolidar o universo visual pelo qual se tornou amplamente reconhecido. Bistrôs, cafés, cabarés, salas de espetáculo, mesas de jantar, ateliês e interiores sofisticados passaram a servir de cenário para encontros, jogos de sedução e pequenos acontecimentos mundanos.

Suas composições são frequentemente povoadas por músicos, dançarinos, casais, garçons e mulheres de presença marcante. Chapéus, taças, garrafas, instrumentos musicais, luvas, bicicletas e objetos de cena funcionam como sinais de uma narrativa que o espectador é convidado a completar.

Embora suas pinturas sejam figurativas, elas não procuram reproduzir o mundo de forma estritamente naturalista. Juarez simplifica volumes, alonga corpos, altera proporções e organiza os personagens como integrantes de uma coreografia. A proximidade com a linguagem do cartaz, da ilustração e da cenografia aparece nos enquadramentos precisos, nas áreas cromáticas bem definidas e na clareza imediata das cenas.

A paleta constitui um dos aspectos mais reconhecíveis de sua produção. Vermelhos profundos, ocres, laranjas, pretos e tons terrosos criam atmosferas simultaneamente calorosas e dramáticas. Em muitas obras, a cor vermelha conduz o olhar e estabelece relações entre roupas, paredes, móveis, vinhos e elementos decorativos.

O artista também explora cortes inesperados e pontos de vista próximos da fotografia e do cinema. Partes de corpos podem desaparecer nos limites da tela, enquanto mãos, pernas, sapatos ou objetos ganham protagonismo. Dípticos, trípticos e sequências permitem que uma mesma ação se desenvolva em diferentes momentos, aproximando a pintura da montagem cinematográfica.

A presença de referências associadas à elegância das primeiras décadas do século XX levou parte da crítica e do mercado a relacionar sua obra ao universo visual do art déco. Entretanto, essa aproximação não deve ser entendida como simples reconstituição de época. Juarez utiliza esse repertório para construir um teatro particular, no qual memória, desejo, ironia e imaginação convivem.

O vinho ocupa um lugar especialmente importante nesse universo. Garrafas, taças, caves e vinhedos aparecem como elementos de sociabilidade, celebração e passagem do tempo. Em 1988, a convite do Centre Georges Pompidou, percorreu castelos e propriedades vinícolas da região de Bordeaux, produzindo desenhos e pinturas inspirados em interiores, adegas e paisagens.

Em diferentes momentos, Juarez Machado desenvolveu conjuntos relacionados a cidades e lugares específicos. Criou séries dedicadas a Joinville, Curitiba, Copacabana, Florianópolis, Bordeaux e Veneza, articulando arquitetura, memória, costumes e observação cotidiana. Nessas produções, a cidade não aparece apenas como paisagem, mas como palco para a experiência humana.

Sua obra tridimensional preserva o mesmo interesse pelo gesto e pela encenação. Esculturas de personagens, bicicletas e figuras em movimento transportam para o espaço físico a elegância gráfica de suas pinturas. Em intervenções públicas, o espectador pode compartilhar o mesmo espaço ocupado pelos personagens, ampliando o aspecto teatral de sua produção.

Em 2014, Juarez Machado concretizou um projeto concebido como forma de retribuição à cidade natal. A antiga residência de sua família, em Joinville, foi transformada no Instituto Internacional Juarez Machado, entidade cultural privada e sem fins lucrativos voltada à preservação de sua obra, à realização de exposições e ao desenvolvimento de atividades artísticas, educativas e sociais.

Em 2022, o Museu Oscar Niemeyer, em Curitiba, apresentou a exposição comemorativa Juarez Machado — Volta ao Mundo em 80 Anos. A mostra reuniu pinturas, desenhos, esculturas, fotografias, objetos e documentos de diferentes períodos, evidenciando a diversidade de sua produção e a relação entre sua experiência brasileira e sua trajetória internacional.

Ao longo de mais de sete décadas de atividade, Juarez Machado desenvolveu uma linguagem imediatamente reconhecível. Sua obra combina sofisticação visual e comunicação direta, transformando cenas cotidianas em acontecimentos carregados de humor, sensualidade e teatralidade. Nela, cada personagem parece desempenhar um papel, cada objeto guarda uma pista e cada pintura funciona como um fragmento de uma narrativa maior.

Há mais de dez anos, a Galeria de Arte Um Lugar ao Sol trabalha com Juarez Machado e comercializa suas obras.


FORMAÇÃO

1959–1964 - Estudos de pintura, Escola de Música e Belas Artes do Paraná, Curitiba, PR, Brasil


EXPOSIÇÕES INDIVIDUAIS E PROJETOS EXPOSITIVOS SELECIONADOS

2022 - Juarez Machado — Volta ao Mundo em 80 Anos, Museu Oscar Niemeyer, Curitiba, PR, Brasil
2015 - Um passeio pelo mundo de Juarez Machado, Brasil
2014 - Juarez Machado: Ontem, Hoje e Sempre, Simões de Assis Galeria de Arte, Curitiba, PR, Brasil
2011 - Soixante-dix, Paris, França
2010 - Jazz Dance, Paris, França
2009 - Château Bordeaux, Simões de Assis Galeria de Arte, Brasil
2008 - Le Parfum, Paris, França
2007 - Diário de Bordo, Simões de Assis Galeria de Arte, Brasil
2006 - Croisières, Paris, França
2004 - Venise, Galerie Akka, Paris, França
2003 - Veneza, Simões de Assis Galeria de Arte, Brasil
2002 - Juarez Machado, Le Libertin, Galerie Akka, Paris, França
2002 - J. Machado, Le Libertin, Galerie du Minotaure, Paris, França
1998 - La Fête Continue, Galerie Akka, Paris, França
1997–1998 - Ilha de Santa Catarina, projeto expositivo inspirado na história e na cultura de Florianópolis, SC, Brasil
1994–1995 - Atelier do Artista, série dedicada aos ateliês mantidos pelo artista no Brasil e na França
1993 - Exposição comemorativa dos 300 anos de Curitiba, Curitiba, PR, Brasil
1992 - Copacabana 100 Anos, série inspirada na história, na música, na poesia e na cultura de Copacabana, Rio de Janeiro, RJ, Brasil
1982 - Arquitetura Joinville, Museu Nacional de Imigração e Colonização, Joinville, SC, Brasil
1964 - Primeira exposição individual, série dedicada às bicicletas, Curitiba, PR, Brasil

 

PRÊMIOS, TÍTULOS E DISTINÇÕES

2015 - Medalha Dona Francisca, Joinville, SC, Brasil
2004 - Título de Cidadão Honorário de Florianópolis, Florianópolis, SC, Brasil
2003 - Medalha de Mérito Cultural Cruz e Sousa, Governo do Estado de Santa Catarina, Brasil
2001 - Título de Doutor Honoris Causa, Universidade da Região de Joinville — Univille, Joinville, SC, Brasil
2001 - Inauguração do Teatro Juarez Machado, Joinville, SC, Brasil
2000 - Distinção de Artista do Século XX, Sindicato dos Jornalistas de Santa Catarina, Brasil
1998 - Medalha do Mérito Anita Garibaldi, Santa Catarina, Brasil
1998 - Título de Manezinho da Ilha, Florianópolis, SC, Brasil
1990 - Ordem de Rio Branco, Brasil
1990 - Título de Cidadão Honorário de Curitiba, Curitiba, PR, Brasil
1990 - Título de Cidadão Honorário de Champs-sur-Marne, França
1982 - Título de Cidadão Honorário de Joinville, Joinville, SC, Brasil
1980 - Prêmio Abril de melhor trabalho de humor em artes gráficas, Brasil

 

OBRAS PÚBLICAS E PROJETOS INSTITUCIONAIS

2014 - Inauguração do Instituto Internacional Juarez Machado, Joinville, SC, Brasil
2004 - Monumento comemorativo dos 500 anos de São Francisco do Sul, São Francisco do Sul, SC, Brasil
2000 - O Grande Circo, painel instalado no Centreventos Cau Hansen, Joinville, SC, Brasil
Década de 1990 - Desenvolvimento de séries especiais sobre Copacabana, Curitiba, Florianópolis, ateliês de artista e a região de Bordeaux
Décadas de 1960–1980 - Criação de cenários, figurinos, vinhetas, aberturas e projetos gráficos para teatro e televisão, Brasil

 

ATUAÇÃO EM TELEVISÃO, IMPRENSA E ARTES GRÁFICAS

Décadas de 1970–1980 - Atuação em criação, programação visual, cenografia e humor na Rede Globo, Rio de Janeiro, RJ, Brasil
Década de 1970 - Performances de mímica e desenho no programa Fantástico, Rede Globo, Brasil
Décadas de 1960–1970 - Atuação como chargista, cartunista e ilustrador em jornais, revistas, livros e capas de discos, Rio de Janeiro, RJ, Brasil
Década de 1960 - Criação de cenários para a TV Paraná, Curitiba, PR, Brasil
1958 - Criação de rótulos, embalagens e ilustrações no Laboratório Catarinense, Joinville, SC, Brasil

 

CATÁLOGOS E PUBLICAÇÕES SELECIONADAS

2022 - Juarez Machado — Volta ao Mundo em 80 Anos, catálogo de exposição
2015 - Um passeio pelo mundo de Juarez Machado, catálogo de exposição
2014 - Juarez Machado: Ontem, Hoje e Sempre, catálogo de exposição, Simões de Assis Galeria de Arte
2011 - Soixante-dix, catálogo de exposição, Paris, França
2010 - Jazz Dance, catálogo de exposição, Paris, França
2009 - Château Bordeaux, catálogo de exposição, Simões de Assis Galeria de Arte
2008 - Le Parfum, catálogo de exposição, Paris, França
2007 - Diário de Bordo, catálogo de exposição, Simões de Assis Galeria de Arte
2006 - Croisières, catálogo de exposição, Galerie Akka, Paris, França
2004 - Venise, catálogo de exposição, Galerie Akka, Paris, França
2003 - Veneza, catálogo de exposição, Simões de Assis Galeria de Arte
2002 - Le Libertin, catálogo de exposição, Galerie Akka, Paris, França
2000 - Brazilian Art, G&A Editora
1998 - La Fête Continue, catálogo de exposição, Galerie Akka, Paris, França
1997 - Ilha de Santa Catarina, catálogo e caderno de esboços, Simões de Assis Galeria de Arte
1995 - Atelier do Artista, catálogo de exposição, Simões de Assis Galeria de Arte
1993 - Homenagem a Curitiba, catálogo de exposição, Simões de Assis Galeria de Arte
1992 - Copacabana 100 Anos, catálogo de exposição, Simões de Assis Galeria de Arte
1991 - 15 Pintores Contemporâneos Brasileiros, Spala Editora

 

ACERVOS E ESPAÇOS INSTITUCIONAIS

Instituto Internacional Juarez Machado, Joinville, SC, Brasil
Museu de Arte de Joinville, Joinville, SC, Brasil
Museu de Arte Contemporânea do Paraná, Curitiba, PR, Brasil
Museu Oscar Niemeyer, Curitiba, PR, Brasil
Museus Ralli, coleção internacional de arte latino-americana
Teatro Juarez Machado, Joinville, SC, Brasil

 

BIBLIOGRAFIA E PESQUISA

2024 - MACHADO, Katiana Rocha. Na Garupa de Juarez Machado: um transitar pelos aspectos fundamentais da obra do artista. Dissertação, Universidade do Estado de Santa Catarina — UDESC
2023 - MACHADO, Katiana Rocha. A iconografia das Três Graças e a persistência do clássico na obra de Juarez Machado
2022 - MACHADO, Katiana Rocha. O patrimônio histórico de Joinville na obra de Juarez Machado
2022 - BINI, Fernando. Juarez Machado e a arte como prazer de viver