Manoel Santiago

Manoel Santiago (Manaus, AM, 1897 – Rio de Janeiro, RJ, 1987), nome artístico de Manoel Colafante Caledônio de Assumpção Santiago, foi um pintor, desenhista e professor brasileiro. Sua produção compreende paisagens, retratos, nus e composições inspiradas nas lendas, na vegetação e nas culturas indígenas da Amazônia.

Nascido em 25 de março de 1897, mudou-se ainda criança para Belém, onde iniciou seu contato com o desenho e a pintura. Durante a juventude, frequentou o ateliê de Theodoro Braga e visitou o Museu Paraense Emílio Goeldi, experiências que despertaram seu interesse pela fauna, pela flora e pelos elementos decorativos das culturas indígenas.

Em 1919, transferiu-se para o Rio de Janeiro. Enquanto cursava Direito, frequentou os cursos livres da Escola Nacional de Belas Artes, onde estudou com Rodolfo Chambelland e João Batista da Costa. Também recebeu orientação particular de Eliseu Visconti, uma das principais referências da pintura brasileira daquele período.

Desde suas primeiras participações nos salões oficiais, Manoel Santiago procurou conciliar a formação acadêmica com temas ligados à região amazônica. Em suas telas, personagens míticos, figuras humanas, animais e elementos da floresta são reunidos em composições marcadas pela imaginação, pelo simbolismo e por uma paleta luminosa.

A teosofia também teve influência sobre sua primeira fase. O artista compreendia a pintura como uma maneira de representar não somente a aparência do mundo, mas também dimensões espirituais e estados interiores. Essa visão aparece em obras nas quais realidade, mito e fantasia se confundem.

Em 1925, casou-se com a pintora Haydéa Lopes, que passou a ser conhecida como Haydéa Santiago. Os dois compartilharam estudos, viagens e experiências artísticas, formando um dos casais de pintores atuantes no ambiente cultural brasileiro das primeiras décadas do século XX.

Em 1926, Manoel Santiago apresentou no Salão Nacional de Belas Artes a obra O Curupira, inspirada no imaginário amazônico. No ano seguinte, conquistou o Prêmio de Viagem ao Exterior com a pintura Marajoaras, atualmente pertencente ao acervo do Museu Nacional de Belas Artes.

A premiação permitiu que Manoel e Haydéa Santiago seguissem para Paris em 1928. Na capital francesa, frequentaram a Académie de la Grande Chaumière e conviveram com artistas brasileiros que também se encontravam na Europa, entre eles Candido Portinari, Quirino Campofiorito e Armando Vianna.

Durante aproximadamente cinco anos, Manoel Santiago participou de exposições como o Salão dos Artistas Franceses, o Salão de Outono, o Salão das Tulherias, o Salão de Inverno e o Salão Colonial dos Artistas Franceses. O contato com a pintura europeia ampliou seu interesse pela luz, pela cor e pelas pinceladas livres.

Ao retornar ao Brasil, em 1932, passou a lecionar no Instituto de Belas Artes do Rio de Janeiro. Dois anos depois, começou a ensinar desenho e pintura no Núcleo Bernardelli, grupo criado por artistas interessados em alternativas ao ensino acadêmico mais rígido.

Entre os artistas que receberam sua orientação estiveram José Pancetti, Edson Motta, Bustamante Sá, Ado Malagoli, José Rescála e Milton Dacosta. Sua atuação docente contribuiu, assim, para a formação de diferentes nomes ligados à renovação da pintura brasileira entre as décadas de 1930 e 1940.

Embora as lendas amazônicas ocupem um lugar importante em sua trajetória, Manoel Santiago tornou-se especialmente reconhecido como paisagista. O Rio de Janeiro, a Baía de Guanabara, o litoral e as regiões serranas aparecem frequentemente em suas pinturas.

Nas paisagens, o artista não procura reproduzir cada elemento com precisão documental. A composição é construída principalmente pela cor, pela atmosfera e pelas variações de luminosidade. As formas podem perder a rigidez dos contornos, permitindo que vegetação, céu, água e construções se integrem por meio das pinceladas.

Essa liberdade aproximou sua pintura de determinadas experiências impressionistas. A afinidade aparece no interesse pelos efeitos da luz, na paleta luminosa e na pincelada solta. Entretanto, sua obra preserva uma estrutura própria, formada pelo aprendizado acadêmico, pelas referências amazônicas e por sua concepção espiritual da arte.

Em trabalhos como Alto Teresópolis, de 1947, a cor e a matéria pictórica transformam a paisagem em uma experiência atmosférica. Em outras obras, árvores, praias, montanhas e áreas de vegetação são utilizadas para organizar a profundidade e conduzir o olhar.

Manoel Santiago também produziu retratos e nus femininos. Nessas composições, a figura humana é tratada com a mesma fluidez encontrada em suas paisagens. Os corpos e os rostos são construídos pela relação entre desenho, luz e cor, sem abandonar inteiramente a liberdade da pincelada.

Com o passar das décadas, sua pintura tornou-se cromaticamente mais livre. Nas paisagens litorâneas realizadas durante os últimos anos de atividade, especialmente em regiões do Maranhão e da Paraíba, as cores adquirem maior autonomia e ultrapassam a função puramente descritiva.

Em 1967, publicou Lendas amazônicas, com o apoio do Governo do Estado do Amazonas. O livro reúne dez narrativas do imaginário regional, como as lendas da Iara, do Jurupari, do Curupira, da Cobra Grande, do Boto e do Uirapuru, acompanhadas por gravuras produzidas pelo próprio artista.

Ao longo da carreira, participou de importantes exposições nacionais e internacionais, entre elas a 1ª Bienal Internacional de São Paulo, o Salão Pan-Americano de Arte e a mostra Tradição e Ruptura, organizada pela Fundação Bienal de São Paulo. Recebeu medalhas e distinções em salões realizados no Brasil e no exterior.

Manoel Santiago faleceu no Rio de Janeiro em 29 de outubro de 1987. Sua obra permanece em instituições como o Museu Nacional de Belas Artes, a Pinacoteca do Amazonas, o Museu de Arte do Rio Grande do Sul, a Academia Brasileira de Letras e a Coleção Santander Brasil.

Atualmente, a Galeria de Arte Um Lugar ao Sol mantém obras de Manoel Santiago em seu acervo e realiza sua comercialização.

 

FORMAÇÃO

Década de 1910 – Estudos de desenho e pintura no ateliê de Theodoro Braga, Belém, PA, Brasil

1919 – Ingresso nos cursos livres da Escola Nacional de Belas Artes, com orientação de Rodolfo Chambelland e João Batista da Costa, Rio de Janeiro, RJ, Brasil

Década de 1920 – Aulas particulares com Eliseu Visconti, Rio de Janeiro, RJ, Brasil

1928–1932 – Estudos e aperfeiçoamento artístico na Académie de la Grande Chaumière, Paris, França

 

EXPOSIÇÕES INDIVIDUAIS

1987 – Exposição individual, Toulouse Galeria de Arte, Rio de Janeiro, RJ, Brasil

 

EXPOSIÇÕES COLETIVAS E PARTICIPAÇÕES EM SALÕES

1920 – 27ª Exposição Geral de Belas Artes, Escola Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro, RJ, Brasil

1921 – 28ª Exposição Geral de Belas Artes, Escola Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro, RJ, Brasil

1922 – 29ª Exposição Geral de Belas Artes, Escola Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro, RJ, Brasil

1923 – 30ª Exposição Geral de Belas Artes, Escola Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro, RJ, Brasil

1924 – 31ª Exposição Geral de Belas Artes, Escola Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro, RJ, Brasil

1925 – 32ª Exposição Geral de Belas Artes, Escola Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro, RJ, Brasil

1926 – 33ª Exposição Geral de Belas Artes, Escola Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro, RJ, Brasil

1927 – 34ª Exposição Geral de Belas Artes, Escola Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro, RJ, Brasil

1928–1932 – Salão dos Artistas Franceses, Salão de Outono, Salão Colonial dos Artistas Franceses, Salão das Tulherias e Salão de Inverno, Paris, França

1929 – Salão Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro, RJ, Brasil

1932 – 1º Salão do Núcleo Bernardelli, Sociedade Sul-Rio-Grandense de Cultura, Rio de Janeiro, RJ, Brasil

1933 – 40ª Exposição Geral de Belas Artes, Escola Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro, RJ, Brasil

1935 – 4º Salão do Núcleo Bernardelli, Escola Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro, RJ, Brasil

1936 – 4º Salão Paulista de Belas Artes, São Paulo, SP, Brasil

1937 – 5º Salão Paulista de Belas Artes, São Paulo, SP, Brasil

1939 – Salão de Belas Artes, Porto Alegre, RS, Brasil

1940 – 7º Salão Paulista de Belas Artes, Salão de Arte Almeida Júnior, São Paulo, SP, Brasil

1941 – Exposição do IV Centenário da Cidade de Santiago, Santiago, Chile

1942 – 8º Salão Paulista de Belas Artes, Galeria Prestes Maia, São Paulo, SP, Brasil

1944 – 50º Salão Nacional de Belas Artes, Museu Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro, RJ, Brasil

1945 – 11º Salão Paulista de Belas Artes, Galeria Prestes Maia, São Paulo, SP, Brasil

1948 – Salão Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro, RJ, Brasil

1949 – 15º Salão Paulista de Belas Artes, Galeria Prestes Maia, São Paulo, SP, Brasil

1950 – Um século da pintura brasileira: 1850–1950, Museu Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro, RJ, Brasil

1951 – 1ª Bienal Internacional de São Paulo, Pavilhão do Trianon, São Paulo, SP, Brasil

1954 – Salão Preto e Branco, Rio de Janeiro, RJ, Brasil

1958 – Salão Pan-Americano de Arte, Porto Alegre, RS, Brasil

1961 – O Rio na pintura brasileira, Biblioteca Estadual da Guanabara, Rio de Janeiro, RJ, Brasil

1965 – Salão do IV Centenário do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, RJ, Brasil

1968 – 17º Salão Nacional de Arte Moderna, Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, RJ, Brasil

1970 – Mostra de Arte, Curitiba, PR, Brasil

1976 – 8º Panorama de Arte Atual Brasileira, Museu de Arte Moderna de São Paulo, São Paulo, SP, Brasil

1982 – Núcleo Bernardelli: arte brasileira nos anos 30 e 40, Acervo Galeria de Arte, São Paulo, SP, Brasil

1984 – Tradição e Ruptura: síntese de arte e cultura brasileiras, Fundação Bienal de São Paulo, São Paulo, SP, Brasil

1985 – 8º Salão Nacional de Artes Plásticas, Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, RJ, Brasil

 

PREMIAÇÕES E DISTINÇÕES

1927 – Prêmio de Viagem ao Exterior pela obra Marajoaras, 34ª Exposição Geral de Belas Artes, Rio de Janeiro, RJ, Brasil

1929 – Medalha de Ouro, Salão Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro, RJ, Brasil

1936 – Menção Honrosa, 4º Salão Paulista de Belas Artes, São Paulo, SP, Brasil

1937 – Medalha de Bronze, 5º Salão Paulista de Belas Artes, São Paulo, SP, Brasil

1939 – Medalha de Honra, Salão de Belas Artes, Porto Alegre, RS, Brasil

1940 – Pequena Medalha de Prata, 7º Salão Paulista de Belas Artes, São Paulo, SP, Brasil

1941 – Medalha de Ouro, Exposição do IV Centenário da Cidade de Santiago, Santiago, Chile

1945 – Grande Medalha de Prata, 11º Salão Paulista de Belas Artes, São Paulo, SP, Brasil

1948 – Medalha de Honra, Salão Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro, RJ, Brasil

1965 – Medalha de Honra, Salão do IV Centenário do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, RJ, Brasil

 

ATIVIDADE DOCENTE

1932 – Professor, Instituto de Belas Artes do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, RJ, Brasil

1934 – Professor de desenho e pintura, Núcleo Bernardelli, Rio de Janeiro, RJ, Brasil

1952 – Recebe em seu ateliê o curso ministrado no Brasil pelo pintor francês André Lhote, Rio de Janeiro, RJ, Brasil

 

PUBLICAÇÕES

1967 – SANTIAGO, Manoel. Lendas amazônicas. Manaus: Governo do Estado do Amazonas

 

ACERVOS INSTITUCIONAIS

Museu Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro, RJ, Brasil

Pinacoteca do Amazonas, Manaus, AM, Brasil

Museu de Arte do Rio Grande do Sul Ado Malagoli, Porto Alegre, RS, Brasil

Academia Brasileira de Letras, Rio de Janeiro, RJ, Brasil

Coleção Santander Brasil, São Paulo, SP, Brasil

 

EXPOSIÇÕES PÓSTUMAS

1989 – Trinta e três maneiras de ver o mundo, Ranulpho Galeria de Arte, São Paulo, SP, Brasil

1990 – Frutas, flores e cores, Ranulpho Galeria de Arte, São Paulo, SP, Brasil

1996 – 4ª Mostra de Arte, Centro Universitário Fieo, Osasco, SP, Brasil

2003 – Tomie Ohtake na trama espiritual da arte brasileira, Instituto Tomie Ohtake, São Paulo, SP, Brasil

2004 – Tomie Ohtake na trama espiritual da arte brasileira, Museu Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro, RJ, Brasil

2015 – Manoel Santiago, mestre impressionista, Centro Cultural Correios, Rio de Janeiro, RJ, Brasil

 

BIBLIOGRAFIA

1975 – OLIVEIRA, Altamir de. Manoel Santiago. Rio de Janeiro: Colorama/Samurai

1980 – BRITTO, Chermont de. Vida triunfante de Manoel Santiago. Rio de Janeiro: Livraria Kosmos

1986 – AQUINO, Flávio de. Manoel Santiago: vida, obra e crítica. Rio de Janeiro: Cabicieri Editorial

2015 – LUZ, Angela Ancora da. Manoel Santiago, mestre impressionista. Rio de Janeiro: Centro Cultural Correios

2024 – RODRIGUES, Laíza de Oliveira. “Manoel Santiago, teosofista: signos da doutrina na obra do pintor amazonense”. Revista de História da Arte e da Cultura, Campinas, SP, Brasil


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