Rachel Gallena

Raquel Gallena (São Paulo, SP, 1955) é uma artista plástica brasileira radicada em Embu das Artes, cidade reconhecida como um dos principais núcleos de produção artística popular do país. Autodidata, encontrou na arte naïf a linguagem mais adequada para expressar sua maneira pessoal de observar a natureza, a vida cotidiana e o imaginário brasileiro.

Sua trajetória está profundamente relacionada ao ambiente cultural de Embu das Artes. A cidade, que se consolidou como ponto de encontro entre pintores, escultores e artesãos, ofereceu à artista um espaço de convivência e experimentação no qual sua produção encontrou condições para se desenvolver.

Raquel iniciou sua carreira artística em 1979. Desde então, passou a participar de exposições individuais e coletivas, construindo uma produção reconhecida pela riqueza cromática, pela presença constante da natureza e pela criação de paisagens que parecem existir entre a memória e o sonho.

Embora suas pinturas sejam facilmente associadas à tradição naïf, a artista desenvolveu um vocabulário visual bastante particular. Suas composições não procuram reproduzir a realidade de maneira acadêmica. Casas, árvores, rios, montanhas, caminhos, pessoas e animais são reorganizados livremente, de acordo com o ritmo e a narrativa de cada cena.

Suas paisagens apresentam um Brasil interiorano transformado pela imaginação. Pequenas construções convivem com jardins exuberantes, rios sinuosos, plantações, pássaros e personagens envolvidos em atividades simples. A vida rural aparece como um espaço de encontro, equilíbrio e proximidade com a natureza.

As flores constituem um dos elementos mais marcantes de sua obra. Elas se espalham pelos campos, acompanham os caminhos, ocupam as árvores e, em algumas composições, parecem avançar pelo céu. Mais do que detalhes decorativos, organizam o movimento da pintura e conduzem o olhar por diferentes pontos da cena.

Os pássaros também aparecem com frequência, atravessando áreas do céu ou integrando-se à vegetação. Sua presença reforça a sensação de liberdade e movimento, enquanto pequenas figuras humanas povoam a paisagem e sugerem festas, encontros, passeios e atividades cotidianas.

A lua é outro elemento recorrente e ocupa uma posição simbólica em sua iconografia. Nas cenas noturnas, não funciona apenas como fonte de luz: torna-se uma presença poética que transforma a atmosfera da pintura. Ao redor dela, o céu pode receber cores inesperadas, flores e revoadas de pássaros, afastando a imagem de qualquer compromisso com a representação naturalista.

Essa liberdade também aparece na maneira como Raquel trabalha a escala e a perspectiva. Casas, personagens, flores e árvores não obedecem necessariamente às proporções do mundo real. Seus tamanhos são definidos de acordo com a importância que assumem dentro da narrativa.

A perspectiva é construída por sobreposição e continuidade. Em vez de um único ponto de vista, a artista distribui os acontecimentos por toda a superfície da tela. O espectador pode percorrer a composição em diferentes direções, descobrindo personagens e pequenas histórias que não se revelam em um primeiro olhar.

O uso intenso da cor contribui para essa experiência. Verdes, azuis, rosas, amarelos, vermelhos e laranjas convivem sem a obrigação de imitar as tonalidades naturais. O céu pode adquirir cores quentes, a noite pode permanecer luminosa e a vegetação pode ser transformada em uma sucessão de pontos e áreas cromáticas.

Apesar da grande quantidade de elementos, suas composições mantêm unidade visual. A repetição das flores, das folhas, das casas e das figuras cria um ritmo que atravessa toda a pintura. Nada parece completamente imóvel: os caminhos se curvam, os rios conduzem o olhar e a vegetação parece crescer diante do espectador.

A técnica minuciosa exige atenção aos pequenos detalhes. Cada figura, janela, flor ou pássaro participa da construção de um conjunto maior. Essa acumulação de elementos amplia a sensação de abundância e transforma a paisagem em um espaço imaginário que parece continuar para além dos limites da tela.

A produção de Raquel Gallena não deve ser entendida apenas como uma visão idealizada do campo. Suas pinturas também preservam imagens de convivência, trabalho, celebração e contato com a natureza. O cotidiano é reorganizado como um lugar possível de beleza e equilíbrio.

Ao longo da carreira, a artista tornou-se uma presença importante no ambiente cultural de Embu das Artes. Além de desenvolver sua própria produção, transmitiu conhecimentos e incentivou outros artistas. Em 1987, o contato com Raquel foi decisivo para que a pintora capixaba Ângela Gomes passasse a se dedicar à arte naïf.

Raquel também participou de iniciativas voltadas ao fortalecimento das artes visuais em sua cidade. Em 2010, integrou a comissão formada para colaborar com o retorno do Salão de Artes Plásticas de Embu, evento historicamente ligado à consolidação do município como polo artístico.

Durante a década de 2010, participou de exposições dedicadas à produção feminina e à valorização da arte naïf. Em 2018, integrou a III Exposição Internacional de Arte Naïf Universo da Alma Ingênua, em Vitória, ao lado de artistas brasileiros e estrangeiros.

Em 2019, participou da mostra coletiva Raízes da Arte Naif, no Centro Cultural Mestre Assis do Embu, e da 4ª Mostra Internacional de Arte Naïf, realizada em Santa Teresa, no Espírito Santo. Também teve trabalhos apresentados na Mostra Nacional de Arte Naïf, com as obras A vida no campo e Campo florido.

Em 2020, Raquel Gallena foi selecionada para a 15ª Bienal Naïfs do Brasil, realizada pelo Sesc Piracicaba. A exposição, intitulada Ideias para adiar o fim da arte, reuniu 125 artistas de 21 estados brasileiros e do Distrito Federal.

No ano seguinte, participou do Salão Paulista de Arte Naif, que reuniu 146 obras de 83 artistas e prestou homenagem ao pintor José Antônio da Silva. Em 2022, integrou a exposição coletiva A poética visual da arte feita por mulheres, em Embu das Artes.

Com mais de quatro décadas de atividade, Raquel Gallena construiu uma pintura narrativa na qual a simplicidade não significa ausência de elaboração. Cada obra resulta de uma organização cuidadosa de cores, formas, movimentos e acontecimentos.

Seu trabalho convida o espectador a percorrer a pintura com calma. As histórias não estão concentradas em um único personagem ou elemento, mas distribuídas por toda a tela. A paisagem transforma-se, assim, em um mundo aberto, povoado por imagens de beleza, convivência, movimento e esperança.

Desde 2018, a Galeria de Arte Um Lugar ao Sol trabalha com Raquel Gallena e realiza a comercialização de suas pinturas.

 

FORMAÇÃO

Autodidata – Formação desenvolvida por meio da prática da pintura, da experimentação e da convivência com o ambiente artístico de Embu das Artes, SP, Brasil

 

EXPOSIÇÕES COLETIVAS E PARTICIPAÇÕES EM SALÕES

2022 – A poética visual da arte feita por mulheres, Embu das Artes, SP, Brasil

2021 – Salão Paulista de Arte Naif, São Paulo, SP, Brasil

2020–2021 – 15ª Bienal Naïfs do Brasil — Ideias para adiar o fim da arte, Sesc Piracicaba, Piracicaba, SP, Brasil

2019 – Mostra Nacional de Arte Naïf, São Paulo, SP, Brasil

2019 – 4ª Mostra Internacional de Arte Naïf — Universo da Alma Ingênua, Museu de Biologia Professor Mello Leitão, Santa Teresa, ES, Brasil

2019 – Raízes da Arte Naif, Centro Cultural Mestre Assis do Embu, Embu das Artes, SP, Brasil

2018 – III Exposição Internacional de Arte Naïf — Universo da Alma Ingênua, Shopping Vitória, Vitória, ES, Brasil

2017 – Mostra dos Recusados: Conexão Dia do Artista Plástico, Espaço Cultural da Câmara Municipal de Mogi das Cruzes, Mogi das Cruzes, SP, Brasil

2015 – Olhar feminino na arte: caminhos, diversidades, Centro Cultural Mestre Assis do Embu, Embu das Artes, SP, Brasil

2014 – Artistas Mulheres nas Artes, Centro Cultural Mestre Assis do Embu, Embu das Artes, SP, Brasil

 

ATUAÇÃO CULTURAL E DOCENTE

Desde 1979 – Participação em exposições individuais e coletivas no Brasil

2010 – Integrante da comissão responsável pela retomada do Salão de Artes Plásticas de Embu, Embu das Artes, SP, Brasil

Década de 2010 – Orientação de alunos e desenvolvimento de atividades de pintura em Embu das Artes, SP, Brasil

 

CIRCULAÇÃO INTERNACIONAL

Obras pertencentes a coleções particulares nos Estados Unidos, no Japão e em países europeus

 

GALERIA DE ARTE UM LUGAR AO SOL

Desde 2018 – Obras disponíveis na Galeria de Arte Um Lugar ao Sol, Curitiba, PR, Brasil