THEODORO DE BONA (Morretes, PR, 1904 – Curitiba, PR, 1990) foi um pintor, desenhista, professor e escritor brasileiro. Frequentemente apontado como o primeiro grande pintor nascido no Paraná, construiu uma trajetória fundamental para a consolidação das artes visuais no estado ao longo do século XX.
Nascido em 11 de junho de 1904, era filho de Antonio De Bona e Cesira Bertazzoni De Bona, descendentes de imigrantes italianos. Iniciou os estudos no Grupo Escolar de Morretes e, após perder os pais ainda criança, mudou-se para Curitiba em 1912, passando a viver com o tio Arcângelo De Bona.
Na capital, estudou no Colégio Bom Jesus e posteriormente no Ginásio Curitibano, dirigido pelo professor Luiz Parigot. Sua habilidade para o desenho chamou a atenção de professores e pessoas próximas à família. Antes de chegar ao ateliê de Alfredo Andersen, recebeu orientações de Gina Bianchi e Ercília Cecchi.
Entre 1922 e 1927, estudou pintura com Alfredo Andersen, mestre norueguês reconhecido como o Pai da Pintura Paranaense. No ateliê, conviveu com artistas como Estanislau Traple, Waldemar Curt Freyesleben, Vasco Taborda Júnior e Augusto Pernetta, consolidando sua formação em desenho, composição e pintura de observação.
A primeira participação de De Bona em uma exposição coletiva ocorreu em 1925, em uma mostra de alunos de Andersen realizada na Associação Comercial do Paraná. Em 1926, apresentou trabalhos na Biblioteca Pública do Paraná.
No ano seguinte, organizou uma exposição no hall do antigo Cine Mignon, em Curitiba. Composta por 26 obras, a mostra tinha o objetivo de arrecadar recursos para sua viagem de aperfeiçoamento à Europa. A venda de parte das pinturas, somada às bolsas concedidas pelo Governo do Paraná e pela Prefeitura de Morretes, permitiu que seguisse para a Itália em 1927.
Em Veneza, ingressou na Real Academia de Belas Artes, onde recebeu orientação de Ettore Tito, Vincenzo De Stefani e Virgilio Guidi. A formação acadêmica aprofundou seu domínio do desenho, da perspectiva, da anatomia e da construção cromática.
Paralelamente aos estudos, aproximou-se do ambiente artístico relacionado às exposições de Ca’ Pesaro e conviveu com jovens artistas interessados na renovação da pintura italiana. Entre os nomes associados a esse círculo estavam Armando Tonello, Neno Mori, Giuseppe Cesetti, Marco Novati e Giuseppe Santomaso. Também manteve contato com pintores ligados à Escola de Burano, como Carlo Dalla Zorza, Fioravante Seibezzi e Mario Varagnolo.
A experiência italiana permitiu que De Bona conciliasse a formação acadêmica com novas possibilidades de representação. Suas paisagens passaram a revelar maior liberdade no emprego da cor e no tratamento da luz, ainda que preservassem uma estrutura compositiva cuidadosamente construída.
Em 1928, participou pela primeira vez do Salão Oficial dos Artistas Venezianos, certame do qual voltaria a participar nos anos seguintes. Em 1930, integrou a 17ª Bienal Internacional de Veneza e o Salão de Artistas Latino-Americanos. Também apresentou trabalhos em exposições realizadas em Florença e outras cidades italianas.
Mesmo depois do encerramento das bolsas, decidiu permanecer na Europa, sustentando-se com a venda de suas pinturas. Durante quase uma década na Itália, produziu paisagens, figuras, retratos e estudos acadêmicos, além de acompanhar de perto as transformações da arte europeia entre as duas guerras mundiais.
De Bona retornou ao Brasil em 1936. No ano seguinte, apresentou no Clube Curitibano uma exposição composta por aproximadamente 120 obras produzidas durante sua permanência na Europa. A mostra marcou sua reapresentação ao público paranaense e revelou as mudanças ocorridas em sua pintura.
Embora seja especialmente reconhecido como paisagista, sua produção inclui retratos, naturezas-mortas, cenas urbanas, composições religiosas e pinturas históricas. Morretes, Curitiba, o litoral, a Serra do Mar, os caminhos rurais e as araucárias aparecem com frequência em suas telas.
Em suas paisagens, a natureza não é tratada apenas como registro geográfico. De Bona organiza planos, volumes e áreas cromáticas para construir a atmosfera de cada lugar. A luz modifica as cores, dissolve alguns contornos e conduz o olhar por caminhos, rios, montanhas e agrupamentos de árvores.
Sua pintura apresenta aproximações com o impressionismo, especialmente pelo interesse nas variações luminosas e atmosféricas. Entretanto, a atenção aos volumes e a estrutura de suas composições afastam sua obra de uma adesão estrita ao movimento. O diálogo com Paul Cézanne pode ser percebido na construção das formas por meio da cor e na busca por uma organização sólida da paisagem.
A crítica de arte Adalice Araújo identificou De Bona como um dos precursores do modernismo no Paraná e um dos principais representantes do chamado objetivismo visual no estado. Mesmo partindo da observação direta, o artista alcançou uma pintura capaz de transformar paisagens simples em construções carregadas de atmosfera e emoção.
De Bona também participou da construção de uma iconografia histórica paranaense. Entre 1947 e 1948, realizou Fundação de Curitiba, pintura de grandes dimensões pertencente à Pinacoteca do Colégio Estadual do Paraná. Em 1952, produziu Instalação da Província do Paraná, painel destinado ao Palácio Iguaçu.
Nessas composições, conciliou pesquisa histórica e imaginação para representar acontecimentos que não possuíam registros visuais contemporâneos. Sua produção inclui ainda obras como Morte do general Carneiro no Cerco da Lapa e retratos de personalidades ligadas à história política e cultural do estado.
A temática religiosa igualmente ocupou um lugar importante em sua trajetória. Em 1935, durante sua permanência na Itália, realizou um painel dedicado a Santa Teresinha para uma igreja em Maslianico, na Lombardia. Entre 1976 e 1978, pintou as quatorze estações da Via-Sacra para a Igreja Matriz de Nossa Senhora do Porto, em Morretes.
A série foi oferecida em memória de sua mãe e representou um reencontro simbólico com sua cidade natal. Em uma das estações, o artista incluiu o próprio autorretrato; em outra, representou o padre Walter Zimouski, responsável pelo convite para a realização do conjunto.
Além da produção artística, De Bona exerceu papel importante no ensino das artes. Foi um dos nomes ligados à consolidação da Escola de Música e Belas Artes do Paraná. Entre 1952 e 1962, ocupou a cadeira de Pintura e, entre 1962 e 1968, também lecionou Desenho.
De 1970 a 1974, dirigiu a instituição. Como professor e diretor, contribuiu para a formação de artistas e para a organização do ensino superior de arte no Paraná, preservando a disciplina técnica recebida de Andersen e na Academia de Veneza, mas incentivando os alunos a desenvolver caminhos próprios.
Sua ligação com a história cultural de Curitiba resultou no livro Curitiba, pequena “Montparnasse”, publicado em 1982. Na obra, registrou personagens, ateliês, exposições e episódios do meio artístico curitibano das primeiras décadas do século XX, preservando acontecimentos que conheceu como participante direto.
Em reconhecimento à sua contribuição cultural, recebeu, em 1981, o título de Cidadão Honorário de Curitiba. Em 1983, foi condecorado pela República Italiana com a Ordem do Mérito, no grau de Cavaliere Ufficiale.
Theodoro de Bona faleceu em Curitiba em 20 de setembro de 1990. Sua obra permanece preservada em museus, instituições públicas e coleções particulares. Suas paisagens, retratos, pinturas históricas e composições religiosas constituem documentos fundamentais para a compreensão da formação artística e cultural do Paraná.
Atualmente, a Galeria de Arte Um Lugar ao Sol mantém obras de Theodoro de Bona em seu acervo e realiza sua comercialização.
FORMAÇÃO
1912 – Estudos de desenho, Colégio Bom Jesus, Curitiba, PR, Brasil
Década de 1910 – Estudos no Ginásio Curitibano, dirigido pelo professor Luiz Parigot, Curitiba, PR, Brasil
1919–1922 – Orientações artísticas com Gina Bianchi e Ercília Cecchi, Curitiba, PR, Brasil
1922–1927 – Estudos de pintura no ateliê de Alfredo Andersen, Curitiba, PR, Brasil
1927 – Ingresso na Real Academia de Belas Artes de Veneza, Veneza, Itália
Décadas de 1920 e 1930 – Estudos com Ettore Tito, Vincenzo De Stefani e Virgilio Guidi, Veneza, Itália
Décadas de 1920 e 1930 – Aproximação com o ambiente artístico de Ca’ Pesaro e da Escola de Burano, Veneza, Itália
EXPOSIÇÕES INDIVIDUAIS
1926 – Exposição individual, Biblioteca Pública do Paraná, Curitiba, PR, Brasil
1927 – Exposição individual, hall do Cine Mignon, Curitiba, PR, Brasil
1937 – Exposição individual, Clube Curitibano, Curitiba, PR, Brasil
1939 – Exposição individual, com apresentação de Menotti del Picchia, Palácio das Arcadas, São Paulo, SP, Brasil
1943 – Exposição individual, Clube Curitibano, Curitiba, PR, Brasil
1944 – Exposição individual, Museu Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro, RJ, Brasil
1946 – Exposição individual, Palace Hotel, Rio de Janeiro, RJ, Brasil
1946 – Exposição individual, Sala de Exposições da Prefeitura Municipal, Curitiba, PR, Brasil
1950 – Exposição individual promovida pela Secretaria de Educação e Cultura do Paraná, Edifício João Alfredo, Curitiba, PR, Brasil
1956 – Exposição individual, Biblioteca Pública do Paraná, Curitiba, PR, Brasil
1965 – Exposição retrospectiva, Biblioteca Pública do Paraná, Curitiba, PR, Brasil
1968 – Exposição individual, Biblioteca Pública do Paraná, Curitiba, PR, Brasil
1974 – Exposição individual, Galeria Cocaco, Curitiba, PR, Brasil
1975 – Exposição retrospectiva organizada por Domício Pedroso, Banco de Desenvolvimento do Paraná — BADEP, Curitiba, PR, Brasil
1981 – Exposição individual, Museu Alfredo Andersen, Curitiba, PR, Brasil
1983 – Exposição individual, Clube Curitibano, Curitiba, PR, Brasil
1983 – Exposição retrospectiva, Museu Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro, RJ, Brasil
1984 – Exposição individual, Galeria Ida e Anita, Curitiba, PR, Brasil
1984 – Exposição retrospectiva, Museu Guido Viaro, Curitiba, PR, Brasil
EXPOSIÇÕES COLETIVAS E PARTICIPAÇÕES EM SALÕES
1925 – Exposição coletiva dos alunos de Alfredo Andersen, Associação Comercial do Paraná, Curitiba, PR, Brasil
1928 – Salão Oficial dos Artistas Venezianos, Veneza, Itália
1930 – 17ª Bienal Internacional de Veneza, Veneza, Itália
1930 – Salão de Artistas Latino-Americanos, Veneza, Itália
1935 – Mostra Inter-Regional de Florença, Florença, Itália
1935 – Salão Oficial dos Artistas Venezianos, Veneza, Itália
1935 – Mostra dos 40 Anos da Bienal de Veneza, Veneza, Itália
1939 – Salão Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro, RJ, Brasil
1940 – Salão do Bicentenário de Porto Alegre, Porto Alegre, RS, Brasil
1942 – 8º Salão Paulista de Belas Artes, Galeria Prestes Maia, São Paulo, SP, Brasil
1944 – 1º Salão Paranaense de Belas Artes, Escola de Professores, Curitiba, PR, Brasil
1944 – 50º Salão Nacional de Belas Artes, Museu Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro, RJ, Brasil
1949 – 6º Salão Paranaense de Belas Artes, Instituto de Educação do Paraná Professor Erasmo Pilotto, Curitiba, PR, Brasil
1950 – 3º Salão da Primavera, Clube Concórdia, Curitiba, PR, Brasil
1951 – 8º Salão Paranaense de Belas Artes, Departamento de Cultura do Paraná, Curitiba, PR, Brasil
1952 – 9º Salão Paranaense de Belas Artes, Departamento de Cultura do Paraná, Curitiba, PR, Brasil
1953 – 10º Salão Paranaense de Belas Artes, Exposição Internacional do Café e Feira de Curitiba, Tarumã, Curitiba, PR, Brasil
1954 – 11º Salão Paranaense de Belas Artes, Biblioteca Pública do Paraná, Curitiba, PR, Brasil
1955 – 12º Salão Paranaense de Belas Artes, Biblioteca Pública do Paraná, Curitiba, PR, Brasil
1956 – 13º Salão Paranaense de Belas Artes, Biblioteca Pública do Paraná, Curitiba, PR, Brasil
1958 – 15º Salão Paranaense de Belas Artes, Biblioteca Pública do Paraná, Curitiba, PR, Brasil
1970 – Exposição coletiva, Pinacoteca do Estado de São Paulo, São Paulo, SP, Brasil
1973 – Salão Paranaense, Sala Especial, Curitiba, PR, Brasil
1983 – 40º Salão Paranaense, Teatro Guaíra, Curitiba, PR, Brasil
1985 – 8º Salão Nacional de Artes Plásticas, Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, RJ, Brasil
1986 – Tradição/Contradição, Museu de Arte Contemporânea do Paraná, Curitiba, PR, Brasil
1988 – Gravadores Paranaenses das Décadas de 1950 e 1960, Museu Municipal de Arte, Curitiba, PR, Brasil
PREMIAÇÕES E DISTINÇÕES
1939 – Medalha de Prata, Salão Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro, RJ, Brasil
1940 – Premiação, Salão do Bicentenário de Porto Alegre, Porto Alegre, RS, Brasil
1944 – Medalha de Prata, 1º Salão Paranaense de Belas Artes, Curitiba, PR, Brasil
1950 – Medalha de Ouro, 3º Salão da Primavera, Clube Concórdia, Curitiba, PR, Brasil
1956 – Prêmio Aquisição, 13º Salão Paranaense de Belas Artes, Curitiba, PR, Brasil
1958 – Prêmio Aquisição, 15º Salão Paranaense de Belas Artes, Curitiba, PR, Brasil
1981 – Título de Cidadão Honorário de Curitiba, Câmara Municipal de Curitiba, Curitiba, PR, Brasil
1983 – Ordem do Mérito da República Italiana, grau de Cavaliere Ufficiale, Itália
OBRAS PÚBLICAS, HISTÓRICAS E RELIGIOSAS
1935 – Painel dedicado a Santa Teresinha, igreja em Maslianico, Lombardia, Itália
1947–1948 – Fundação de Curitiba, Pinacoteca do Colégio Estadual do Paraná, Curitiba, PR, Brasil
1952 – Instalação da Província do Paraná, Palácio Iguaçu, Curitiba, PR, Brasil
Sem data confirmada – Morte do general Carneiro no Cerco da Lapa
1976–1978 – Via-Sacra, Igreja Matriz de Nossa Senhora do Porto, Morretes, PR, Brasil
ATIVIDADE DOCENTE E INSTITUCIONAL
1944 – Participação na criação do Salão Paranaense de Belas Artes, Curitiba, PR, Brasil
1948 – Participação no processo de constituição da Escola de Música e Belas Artes do Paraná, Curitiba, PR, Brasil
1952–1962 – Professor titular de Pintura, Escola de Música e Belas Artes do Paraná, Curitiba, PR, Brasil
1962–1968 – Professor de Desenho, Escola de Música e Belas Artes do Paraná, Curitiba, PR, Brasil
1970–1974 – Diretor, Escola de Música e Belas Artes do Paraná, Curitiba, PR, Brasil
PUBLICAÇÕES
1982 – DE BONA, Theodoro. Curitiba, pequena “Montparnasse”. Curitiba: Imprimax
ACERVOS E ESPAÇOS INSTITUCIONAIS
Museu Oscar Niemeyer, Curitiba, PR, Brasil
Museu Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro, RJ, Brasil
Pinacoteca do Estado de São Paulo, São Paulo, SP, Brasil
Museu de Arte Contemporânea do Paraná, Curitiba, PR, Brasil
Museu Alfredo Andersen, Curitiba, PR, Brasil
Museu Municipal de Arte, Curitiba, PR, Brasil
Escola de Música e Belas Artes do Paraná, Curitiba, PR, Brasil
Pinacoteca do Tribunal de Justiça do Estado do Paraná, Curitiba, PR, Brasil
Pinacoteca do Colégio Estadual do Paraná, Curitiba, PR, Brasil
Palácio Iguaçu, Curitiba, PR, Brasil
Prefeitura Municipal de Curitiba, Curitiba, PR, Brasil
Igreja Matriz de Nossa Senhora do Porto, Morretes, PR, Brasil
EXPOSIÇÕES PÓSTUMAS
1991 – Retratos, Museu de Arte Contemporânea do Paraná, Curitiba, PR, Brasil
1991 – Museu Municipal de Arte: Acervo, Museu Municipal de Arte, Curitiba, PR, Brasil
2000 – Acervo BADEP, Secretaria de Estado da Educação do Paraná, Curitiba, PR, Brasil
2004–2005 – Theodoro de Bona em Veneza, Museu Oscar Niemeyer, Curitiba, PR, Brasil
2024–2025 – Afinidades III — Cochicho, Museu Oscar Niemeyer, Curitiba, PR, Brasil
BIBLIOGRAFIA
1968 – PILOTTO, Erasmo. Th. De Bona. Curitiba, PR, Brasil
1982 – DE BONA, Theodoro. Curitiba, pequena “Montparnasse”. Curitiba: Imprimax
1989 – JUSTINO, Maria José. De Bona: um exercício de criação. Curitiba: Scientia et Labor
2004 – DE BONA, Theodoro. Curitiba, pequena “Montparnasse”. Curitiba: Secretaria de Estado da Cultura do Paraná
2006 – ARAÚJO, Adalice. Dicionário das Artes Plásticas no Paraná. Curitiba, PR, Brasil